
Mais do que observar ou reclamar, a juventude assume o papel de transformação social e liderança comunitária.
Durante muito tempo, repetiu-se o discurso de que o jovem é o futuro, que ocupar espaços de decisão ou propor mudanças estruturais, sejam tarefas exclusivas para os mais experientes ou para quem já acumulava títulos e status. Mas, a realidade nos mostra o oposto: a transformação social começa quando a juventude entende que o seu dia a dia é diretamente impactado pelas decisões do presente e resolve agir no agora.
O protagonismo juvenil não é um conceito abstrato ou uma promessa para o amanhã. Ele se materializa nas salas de aula, nas representações de turma, nos colegiados escolares e, de forma ainda mais potente, nas comunidades e territórios periféricos. Quando um jovem decide deixar a posição de espectador para se tornar agente de mudança, ele não leva apenas a sua própria voz, mas transforma-se no eco de tantas outras pessoas que buscam representatividade, acessibilidade e uma sociedade mais igualitária.
Para ilustrar o poder real dessa trajetória e como as lideranças jovens locais estão rompendo barreiras e alcançando palcos nacionais, compartilho abaixo o relato de uma caminhada que nasceu, no bairro Cidade de Deus, em Sete Lagoas – MG e que mostra que ocupar espaços é um direito e uma necessidade de todos nós.
Da Cidade de Deus para o País: Minha Trajetória de Participação e Mudança
Me chamo José Eduardo Soares Role, tenho 20 anos, sou estudante de Psicologia da Faculdade Atenas e membro do GDC (Grupo de Desenvolvimento Comunitário) do bairro Cidade de Deus.
Durante muito tempo, minha visão sobre protagonismo juvenil era bem distante da realidade. Eu achava que participar, opinar ou tentar mudar algo eram coisas para pessoas mais velhas, mais experientes, com muitos seguidores no Instagram ou que já ocupavam espaços importantes. Mas, ainda no ensino médio, comecei a perceber que muitos acontecimentos que influenciavam meu dia a dia dependiam justamente de tomadas de decisão, e que a juventude também precisava ocupar esses lugares.
Cansado de ver isso me afetar sem fazer nada, resolvi deixar de ser alguém que apenas observa e reclama para me tornar alguém que age. Então comecei a participar de tudo o que me permitia opinar e ser realmente ouvido.
Me tornei representante de turma, membro do colegiado escolar e participei de outros projetos da escola. Fora dela, comecei a participar do Lidera, na CDM, onde aprendi mais sobre direitos, deveres e participação cidadã.
Aqui comecei a perceber que meu posicionamento realmente gerava impacto e mudança, e que eu não estava somente defendendo meus próprios ideais ou vontades, mas também sendo porta-voz de várias outras pessoas que viam em mim um exemplo de que, assim como eu, também poderiam ocupar aqueles espaços e serem ouvidas.
Ambos os lugares tinham dinâmicas parecidas: reuniões, assinaturas de atas, debates e estudos de melhorias que poderiam beneficiar não só um pequeno grupo, mas toda a comunidade. Foi nesses espaços que comecei a construir uma liderança comunitária jovem, desenvolvendo visão, estratégias e ações voltadas para o coletivo.
Essas experiências influenciaram muito minha vida. Escolhas, relacionamentos e vínculos foram moldados no decorrer de tudo isso. Em março, tive a oportunidade de representar a cidade e o estado onde vivo na Primeira Conferência Nacional das Juventudes (“Conexão na Real”), promovida pelo Departamento Nacional do Serviço Social do Comércio (Sesc), no Rio de Janeiro.
Foi algo muito além do esperado: um intercâmbio com jovens de quase todo o país, que me mostrou que nós, enquanto juventude, temos força e capacidade para mudar nossas próprias realidades. Lá, pude colocar em prática tudo o que havia aprendido nesses espaços e levar a voz da minha comunidade, mas dessa vez não somente para meu bairro ou minha cidade, e sim para o país inteiro.
Hoje é visível para mim o quanto lugares que potencializam a voz da juventude, independentemente de onde ela venha, são importantes se quisermos uma sociedade mais igualitária. Dar voz, ouvir e oportunizar espaços de posicionamento é garantir um futuro mais plural, com mais identidade, participação e acessibilidade para todos.
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