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Ouvir a Voz da Juventude: Protagonismo Juvenil – a Força para Mudança Territorial

Agosto é oficialmente o mês da Juventude. Celebrado no dia 12 de agosto, o Dia Internacional da Juventude traz para nós, enquanto sociedade, uma reflexão urgente sobre o papel dos nossos jovens na construção de novas perspectivas, no presente, para um futuro mais promissor. Mas, antes que você repense esse raciocínio, alegando desacreditar na juventude por considerá-la “desinteressada, descompromissada ou apática”, convido você a conceder um tempo de atenção para contrapor essa visão determinista.

Nas experiências com a juventude periférica, compreende-se a complexidade e a dureza de ser uma criança que estampa os dados do IBGE (2024): cerca de 42,7% dos indivíduos de 0 a 14 anos vivem em lares que dependem de programas de transferência de renda para superar a extrema pobreza, subsistindo com até R$ 218,00 mensais por pessoa no contexto familiar. Nesse cenário, desenvolver senso crítico enquanto se forma a própria identidade é uma tarefa árdua, pois a prioridade imediata é simplesmente sobreviver.

Ao pisar no “chão” do território, outros marcadores sociais emergem com força. Segundo o IPEA, a incidência da pobreza revela uma desproporcionalidade gritante nos arranjos familiares chefiados por mulheres pretas ou pardas, onde mais de 70% dos moradores vivem abaixo da linha da pobreza. O impacto desse marcador de gênero e raça é evidente: das pessoas de 15 a 29 anos em situação de extrema vulnerabilidade, 45,2% são mulheres jovens pretas ou pardas. Elas são frequentemente sobrecarregadas pela economia do cuidado, com trabalhos domésticos não remunerados e atenção a dependentes, o que inviabiliza a continuidade dos estudos ou a busca por qualificação.

O resultado? Nos domicílios que compõem os 10% de menor renda no país, a proporção de jovens fora da escola (até 17 anos) e do mercado de trabalho (a partir dos 18 anos) chega a ser sete vezes maior do que nas classes mais abastadas. Hoje, cerca de 21,2% dos jovens brasileiros de 15 a 29 anos (cerca de 10,3 milhões de pessoas) não estudam nem trabalham formalmente, considerando oportunidades legais, como Jovem Aprendiz ou outras, a partir dos 18 anos. Quando a educação formal encontra dificuldades em se consolidar como espaço de mobilidade e projeção de futuro, a provocação recai sobre a Rede: qual tem sido o papel, enquanto terceiro setor e rede intersetorial, diante da escassez de oportunidades locais? É nítido que a ausência de equipamentos públicos de cultura, esporte e lazer nas periferias restringem o desenvolvimento integral dessas crianças e adolescentes, e ampliam a distância entre as oportunidades possíveis e a falta de capacitação, alimentando ciclos contínuos de subaproveitamento das potencialidades juvenis.

Entretanto, você pode indagar: “Esses dados não geram um determinismo? É possível romper com vulnerabilidades tão arraigadas como: baixa perspectiva de futuro, fragilidade de vínculos, evasão escolar e risco social?” A resposta é direta: nesse cenário, não basta a contenção de danos, exige-se proposta sistêmica e emancipatória.

Afinal, olhar para o território apenas a partir das suas carências é contar metade da história. O diferencial da atuação da CDM, há mais de dez anos no território do bairro Cidade de Deus em Sete Lagoas-MG, está em mudar a lente: enxergar a periferia e a sua juventude não apenas pelas suas dores, mas por suas potências. Crianças e jovens periféricos sujeitos de direitos, portadores de saberes, criatividade e força transformadora. Para isso, soluções e trilhas metodológicas desenvolvidas não podem nascer para “corrigir” um território, mas para cultivar os ativos que já existem nele.

Nesse sentido, mais do que executar projetos pontuais, a atuação da CDM pauta-se pelo pensamento sistêmico e por uma Teoria da Mudança Territorial baseada na continuidade. Ao conectar escola, família, oportunidades adequadas – disponíveis no mercado de trabalho e os poderes público e privado, as soluções propostas nas jornadas MOVIMENTA (trilhas: Pertencer e Construir Identidade e Aprender com Tecnologia) e ACONTECE (trilhas: Conectar com o mundo do trabalho e Liderar com responsabilidade e protagonismo), acompanham desde a construção da noção de pertencer na infância à inclusão nas diversas oportunidades de aprendizagem e inclusão produtiva, autoliderança e participação social na juventude.

Para compreender como essa engrenagem funciona no mundo real, basta olhar para a trajetória do José Eduardo. Nascido no Maranhão, José chegou a Sete Lagoas em 2018 aos 13 anos, para residir na Ocupação do bairro Cidade de Deus. Quando ingressou nas ações da CDM, ele se definia apenas como “uma criança querendo brincar”.

A sua história ilustra com clareza o ciclo contínuo de desenvolvimento proposto pelas jornadas: MOVIMENTA (Construção de Identidade e Pertencimento): através do projeto de Vivências Artísticas, José começou a superar a timidez e o medo de se expressar. O espaço seguro de escuta permitiu que ele se descobrisse como sujeito ativo e desenvolvesse competências socioemocionais essenciais; e ACONTECE (Liderança e Participação Cidadã): ao avançar para as oficinas do projeto Lidera, o foco expandiu-se do “eu” para o “nós”. José descobriu a sua vocação para a liderança comunitária e a Participação Social: frequentou Conferências Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente e da Assistência Social, e passou a integrar ativamente o Grupo de Desenvolvimento Comunitário (GDC) do bairro; Resiliência e Impacto Real: ao tentar novos caminhos buscando cursar Agronomia no Mato Grosso do Sul, José enfrentou adversidades. No entanto, o vínculo com a comunidade e a base construída não se romperam. Ao retornar para Sete Lagoas em 2026, ele encontrou uma rede de apoio pronta para acolhê-lo e lançá-lo para novos voos, culminando na sua seleção pelo Sesc para representar Minas Gerais na 1ª Conferência Nacional das Juventudes, no Rio de Janeiro.

Hoje, graduando na faculdade de Psicologia, José está como estagiário na CDM, no mesmo espaço que frequentou enquanto beneficiário dos projetos. Ele usa uma metáfora do seu próprio cotidiano para explicar o impacto dessa jornada: a macieira que ele cultiva no seu quintal, assim como a planta que não dá frutos da noite para o dia, ela precisa de adubação, rega, cuidado e podas constantes para crescer saudável e produtiva, o Protagonismo Juvenil exige tempo, continuidade e investimento sistêmico.

Essa visão ganha vida na prática diária e na adaptabilidade das metodologias aos territórios, a exemplo das ações desenvolvidas em Sete Lagoas. As soluções metodológicas não são rígidas; elas se moldam às especificidades, necessidades e potenciais locais. Seja no incentivo ao raciocínio lógico e ao comportamento de leitor – através da tecnologia, seja no estímulo à representatividade cidadã, ou ainda nas pontes construídas com as oportunidades de aprendizagem e inserção no mercado, bem como no acesso às graduações superiores e técnicas, apresentadas nas feiras de empregabilidade, a experiência comprova que, ao oferecer oportunidades reais e espaços seguros de escuta, o impacto transborda do indivíduo para toda a comunidade.

No mês de agosto, ao refletirmos sobre os caminhos das juventudes, renovamos a convicção de que transformar realidades exige visão de longo prazo, articulação em rede e mensuração contínua de impacto. Conectar a causa do protagonismo juvenil a resultados duradouros é um compromisso diário: garantir os direitos e abrir caminhos para que cada criança, adolescente e jovem seja, com autonomia e dignidade, o verdadeiro protagonista da história do seu desenvolvimento e, consequentemente, do seu território.

Eudson Almeida

Psicólogo, pós-graduado em Políticas Públicas e Projetos Sociais e articulador social, Coordenador de Projetos atua há sete anos no território do bairro Cidade de Deus. Coordena o Comitê de Participação de Adolescentes no CMDCA como mediador do Protagonismo Juvenil nos espaços de Participação e Controle Social.

A CDM – quem somos

Somos uma organização social, fundada em 1986, com identidade institucional CDM Projetos Sociais de Alto Impacto e razão social mantida como CDM Cooperação para o Desenvolvimento e Morada Humana. Ao longo de quatro décadas, a CDM se tornou especialista em estruturar e implementar soluções inovadoras para o desenvolvimento social, conectando causas, organizações e empresas, com foco em gerar valor de forma sustentável, em parceria com empresas, governos e sociedade civil. Nossa sede é em Belo Horizonte, MG, e temos unidades em Contagem, Espírito Santo, Sete Lagoas, e São Paulo.

Atuando como articuladora e mediadora, a CDM transforma desafios sociais em projetos de alto impacto, fortalecendo comunidades, qualificando iniciativas, engajando voluntários e apoiando empresas na construção de agendas ESG sólidas, alinhadas aos Objetivos do Desenvolvimento Social (ODS) da Agenda 2030 e às demandas reais das pessoas e dos territórios.

Nossas diretrizes têm como foco promover o desenvolvimento de pessoas e comunidades, tendo o protagonismo como base de nossas causas.

CDM – Da causa ao impacto:

As causas e as soluções estabelecidas alinham-se aos problemas sociais enfrentados por cada público atendido pela CDM, subdividas em jornadas específicas e trilhas formativas. As causas e soluções que guiam nossa atuação alinhadas ao público a ser atendido:

– Crianças, adolescentes e jovens 

Solução: Caminhos para o protagonismo

– População 50+

Solução: Envelhecimento ativo

– Líderes e organizações sociais:

Solução: Territórios em rede

– Energia e clima com justiça social

Solução: Eficiência Energética Inclusiva

Referências:

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Coordenação de População e Indicadores Sociais. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira: 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2024. 177 p. (Estudos e pesquisas. Informação demográfica e socioeconômica, ISSN 1516-3296)

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça: indicadores de arranjos familiares. Brasília: IPEA, [ano da consulta, ex: 2026]. Disponível em: http://www.ipea.gov.br/retrato/. Acesso em: [17 ago. 2026]

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: juventude, trabalho e condições de vulnerabilidade social. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em meio digital.